Capítulo III - O Ponto de Ruptura
Pela testemunha de Alisson Smith, sem clã (Caitiff)
Pela testemunha de Alisson Smith, sem clã (Caitiff)
Acho que
realmente uma das partes mais desagradáveis dessa nova condição é esse sono
comatoso que cai sobre nós durante o dia. Não que seja a primeira vez que eu
tenha acordado sem saber onde estava, mas é a primeira vez desde que mudei. Mas
na verdade eu acordei para um cenário mais agradável do que eu estava
acostumada. Um quarto que parecia o de um hotel chique, se não fosse pela falta
de janelas. Sig estava na cama do lado da minha, o que foi bastante
reconfortante... É sempre bom saber que não se está sozinho em uma situação
assim. As vozes, no entanto, também estavam lá pra me lembrar de que eu nunca
mais estarei verdadeiramente sozinha. Tentei abafa-las com um cigarro, mas foi
em vão. Sig encontrou roupas chiques no armário, julgamos que seria uma boa
ideia nos arrumarmos para encontrar Lodin... Se eu soubesse que não poderia
retornar aquele quarto não teria deixado a jaqueta lá. Depois de nos lavarmos e trocarmos,
encontramos Jules no corredor que ligava nossos quartos. Ele parecia vestido
como todos os dias, muito elegante aquele dali. Na sala encontramos um senhor
que se apresentou como Galahan, mordomo, que nos disse que éramos aguardados em
um restaurante no centro da cidade. Perguntei se ele tinha algo de comer ali,
porque olha da forma como meus olhos corriam para o pescoço dele sem controle
(... será que é assim que os homens se sentem com relação a decotes...?), não
gosto nem de imaginar o que poderia acontecer. Por sorte ele estava preparado
para essa eventualidade e logo após pudemos ir para o endereço encontrar com
Vossa Majestade. Sig foi dirigindo e tudo correu tranquilo no caminho, mas
vendo os assentos vazios não pude deixar de me perguntar onde nosso camarada de
empreitada estaria, esperava que Joshua tivesse sobrevivido ao dia, apesar de
tudo ele parece um homem de coração e convicções.
Chegando ao endereço entramos em um
restaurante elegante e fino, que devo dizer (mamãe perdoe) contrastava
significativamente com nosso anfitrião para a noite. Conhecemos o Sr. Horatio
Ballard, que eu inicialmente confundi com Vossa Majestade. Ele riu gracejando e
na verdade foi significativamente convidativo e caloroso, nos oferecendo o que
quiséssemos do cardápio que ele aparentemente já conhecia inteiro pelo número
de travessas cheias e vazias que estavam dispostas quando chegamos (curioso que
se mantenha este tipo de hábito nesse mundo, quero dizer, considerando que
nosso alimento é outro). Pediu a garçonete que levassem embora tudo que havia ali,
mesmo os pratos com a comida intocada. Ele é um senhor verdadeiramente
grotesco. Pediu que contássemos um pouco sobre nós e assisti aos outros falarem
brevemente sobre si (o francês não parece ter muita familiaridade com o idioma
e sempre evita a história do avião, deve ser o trauma, vou parar de tocar nesse
assunto) antes de abrir minha boca como aparentemente funciona nesse mundo,
onde aqueles "sem clã" como eu falam por último. Conversei com ele
sobre o tipo de coisa que conversava com os amigos pródigos de Tim, conversas
para homens de bolsos cheios e corações vazios e como tal ele pareceu gostar.
Para minha surpresa Josh entrou pela porta sem cerimônia e se sentou junto de
nós calado e desconfortável com o lugar.
Tudo seguiu numa constante até o
momento em que a expressão de Horatio mudou, sério e soturno ele nos disse em
tom de acusação que "não sei como fizeram isso, mas o Príncipe foi
sequestrado", o que teria parecido uma piada, exceto pelo fato de que para
ele não era. Para confirmar isso, Neally, a mão-direita do Príncipe a que tudo
indica, chegou e se juntou ao nosso acusador. Eles estão inamovíveis, o que
muda o cenário das coisas: passamos de convidados em missão diplomática
representando o desejo da coroa, para acusados de um dos piores crimes, somos
agora sequestradores conspiratórios. Segundo nossos anfitriões, temos três
noites para revelar onde escondemos o príncipe. Jules tentou expressar a quão
absurda era a situação e foi assustadoramente repreendido por Horátio. Fomos
então apressados para fora do estabelecimento e nos vimos na presença de
Balthazar, um destilado do pior de tudo que o sul confederado tem a oferecer.
Dava pra sentir o quanto a mera presença daquele homem fazia o sangue de Joshua
ferver, por mais de uma vez eu achei que ele fosse se descontrolar, mas para o
bem de todos nós isso não aconteceu.
Fomos escoltados até a moradia de
Lodin, onde tivemos algum tempo para explorar o enorme andar do prédio de
escritórios que ele chama de casa. Tudo parecia no lugar, exceto no escritório
onde havia um corpo na cadeira com um único tiro a queima roupa no meio da
testa. Sobre a mesa havia um tabuleiro de xadrez e uma carta com uma elegante
letra feminina dizendo algo como "veja bem, se a vida é um xadrez, eu jogo
melhor que você e faltam 4 movimentos para o xeque". No fundo do cômodo
uma pesada porta de cofre escondia os aposentos de Vossa Majestade, mas essa
porta estava amassada como se fosse massinha de modelar, algo de força
assustadora passou por ali. Segui lá para dentro enquanto Sig e Jules foram
olhar as câmeras de segurança e Joshua continuou avaliando o corpo. O que
encontrei dentro do cômodo frio com paredes de metal foram: um pingente estranho
em formato de uma presa negra; sobre a escrivaninha um diário pertencente a Almirante
Thourney, que relatava uma série de acontecimentos que levaram a 1ª Guerra, mas
que mencionava vampiros também e que na contracapa trazia a seguinte
dedicatória "A Roarke, um grande servo que me trouxe um livro sem relevância";
e um grande dossiê compilado por Neally sobre um ritual satânico na cercania da
cidade, que mencionou alguém chamado DuSable e algo chamado Nefandi e também
incluiu um mapa. Me pergunto porque algo assim está no escritório do
Príncipe... Foi então que ouvi um grito feminino e corri até lá para ver uma
moça com nariz ensanguentado Jules exaltado e Sig se desculpando repetidamente
para a moça. Aparentemente, Sig descobriu que não havia nada nas imagens da
segurança (o que nos faz pensar se há um pedaço do filme faltando) se assustou
e bateu por reflexo na mulher que chama Natasha. A moça se culpa por ter
deixado o príncipe ser levado, mas disse que fez seu trabalho de observar as
câmeras e que não viu nada. Fora isso a outra informação que conseguimos com os
seguranças do local foi que o homem morto no escritório era Julian Curry, de 66
anos, contador que trabalhava no prédio. Fomos então praticamente expulsos do
local por Balthazar que disse que ficaria colado na gente até que revelássemos
onde estávamos escondendo o príncipe.
Ele então nos colocou no carro e levou
até a Caverna onde iria nos interrogar se não tivesse sido interrompido por um
jovem negro que tentou estacá-lo. Foi então que aconteceu a maior bagunça que
já vi desde que jogaram uma garrafa de vodka no nosso baterista durante um show
naquele moquifo da zona norte. Um quarto de 4x4, 6 vampiros, uma estaca e uma
faca. Resumindo os acontecimentos, o xerife foi estacado pelo líder local dos
anarquistas do "movimento", Sig deu uma boa surra no Josh na hora em
que um deles queria delatar Damien e o outro queria evitar que o xerife
percebesse o que estava acontecendo, Jules tentou ajudar o xerife assim como
eu, mas o anarquista dominou a situação e saiu na melhor. Ele largou o xerife
comatoso no chão e andou conosco na BMW contando que o xerife tinha ordem de
nos matar (o que faz sentido considerando que havíamos sido enquadrados), mas
que ele mesmo havia sido enviado por alguém que nos queria vivo, que ele Damian
sabia disso porquê tinha contatos na primigênie e que queria que nos
lembrássemos daquilo enquanto procurávamos pelo príncipe, livres de Balthazar
graças a nosso misterioso patrono. Além disso ele nos deu um endereço onde
disse que havia um carniçal livre que nos manteria em segurança, durante a
noite em troca de um gole de vitae.
Para nossa surpresa (ou não, já que
aparentemente não se pode confiar em nenhum vapiro nessa cidade), o endereço
era um 7 Eleven abandonado onde havia um par de policiais que acharam que
éramos os satanistas da floresta e chamaram 4 viaturas de reforço. Não sei quem
são esses cultistas, mas cara, considerando a preocupação da polícia acho que
eles estão envolvidos no grande jogo da
torre e no sumiço do Rei Vampiro como diria Emily. Afinal conseguimos nos
proteger dentro de um esconderijo cavado e selado com um alçapão nos fundos da
loja. O esconderijo parece um laboratório simples, pela mesa com vidrinhos e
pipetas. Achei investigando o local um frasco de sangue escondido, que dei pra
Sigrún farejar daquele jeito engraçado dela. Só que ela surtou, tomou na mão e
deu um gole igual como se fosse uma beberrona na seca. Ela ficou absurdamente
eufórica, acho que da pra falar que estava quase doidona com aquilo... É um
sangue, muito antigo parece. O guardei comigo antes de adormecer, do lado da
caixa de cigarros, e do lado claro...de Rimbaud, que hoje me disse:
Quem? A eternidade.É o mar misturadoAo sol."Minha alma imortal,Cumpre a tua juraSeja o sol estivalOu a noite pura."Pois tu me liberasDas humanas quimeras,Dos anseios vãos!Tu voas então..."— Jamais a esperança.Sem movimento.Ciência e paciência,O suplício é lento."Que venha a manhã,Com brasas de satã,O deverÉ vosso ardor."Ela foi encontrada!Quem? A eternidade.É o mar misturadoAo sol."
·
Quem na
primigênie nos quer vivos e por quê?
·
Como
esses cultistas estão ligados ao desaparecimento do Príncipe?
·
Qual o
envolvimento de Ballard e Neally nisso?

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