sábado, 2 de novembro de 2019

Capítulo III - O Ponto de Ruptura


Capítulo III - O Ponto de Ruptura

Pela testemunha de Alisson Smith, sem clã (Caitiff)



Acho que realmente uma das partes mais desagradáveis dessa nova condição é esse sono comatoso que cai sobre nós durante o dia. Não que seja a primeira vez que eu tenha acordado sem saber onde estava, mas é a primeira vez desde que mudei. Mas na verdade eu acordei para um cenário mais agradável do que eu estava acostumada. Um quarto que parecia o de um hotel chique, se não fosse pela falta de janelas. Sig estava na cama do lado da minha, o que foi bastante reconfortante... É sempre bom saber que não se está sozinho em uma situação assim. As vozes, no entanto, também estavam lá pra me lembrar de que eu nunca mais estarei verdadeiramente sozinha. Tentei abafa-las com um cigarro, mas foi em vão. Sig encontrou roupas chiques no armário, julgamos que seria uma boa ideia nos arrumarmos para encontrar Lodin... Se eu soubesse que não poderia retornar aquele quarto não teria deixado a jaqueta lá.  Depois de nos lavarmos e trocarmos, encontramos Jules no corredor que ligava nossos quartos. Ele parecia vestido como todos os dias, muito elegante aquele dali. Na sala encontramos um senhor que se apresentou como Galahan, mordomo, que nos disse que éramos aguardados em um restaurante no centro da cidade. Perguntei se ele tinha algo de comer ali, porque olha da forma como meus olhos corriam para o pescoço dele sem controle (... será que é assim que os homens se sentem com relação a decotes...?), não gosto nem de imaginar o que poderia acontecer. Por sorte ele estava preparado para essa eventualidade e logo após pudemos ir para o endereço encontrar com Vossa Majestade. Sig foi dirigindo e tudo correu tranquilo no caminho, mas vendo os assentos vazios não pude deixar de me perguntar onde nosso camarada de empreitada estaria, esperava que Joshua tivesse sobrevivido ao dia, apesar de tudo ele parece um homem de coração e convicções.

Chegando ao endereço entramos em um restaurante elegante e fino, que devo dizer (mamãe perdoe) contrastava significativamente com nosso anfitrião para a noite. Conhecemos o Sr. Horatio Ballard, que eu inicialmente confundi com Vossa Majestade. Ele riu gracejando e na verdade foi significativamente convidativo e caloroso, nos oferecendo o que quiséssemos do cardápio que ele aparentemente já conhecia inteiro pelo número de travessas cheias e vazias que estavam dispostas quando chegamos (curioso que se mantenha este tipo de hábito nesse mundo, quero dizer, considerando que nosso alimento é outro). Pediu a garçonete que levassem embora tudo que havia ali, mesmo os pratos com a comida intocada. Ele é um senhor verdadeiramente grotesco. Pediu que contássemos um pouco sobre nós e assisti aos outros falarem brevemente sobre si (o francês não parece ter muita familiaridade com o idioma e sempre evita a história do avião, deve ser o trauma, vou parar de tocar nesse assunto) antes de abrir minha boca como aparentemente funciona nesse mundo, onde aqueles "sem clã" como eu falam por último. Conversei com ele sobre o tipo de coisa que conversava com os amigos pródigos de Tim, conversas para homens de bolsos cheios e corações vazios e como tal ele pareceu gostar. Para minha surpresa Josh entrou pela porta sem cerimônia e se sentou junto de nós calado e desconfortável com o lugar.
Tudo seguiu numa constante até o momento em que a expressão de Horatio mudou, sério e soturno ele nos disse em tom de acusação que "não sei como fizeram isso, mas o Príncipe foi sequestrado", o que teria parecido uma piada, exceto pelo fato de que para ele não era. Para confirmar isso, Neally, a mão-direita do Príncipe a que tudo indica, chegou e se juntou ao nosso acusador. Eles estão inamovíveis, o que muda o cenário das coisas: passamos de convidados em missão diplomática representando o desejo da coroa, para acusados de um dos piores crimes, somos agora sequestradores conspiratórios. Segundo nossos anfitriões, temos três noites para revelar onde escondemos o príncipe. Jules tentou expressar a quão absurda era a situação e foi assustadoramente repreendido por Horátio. Fomos então apressados para fora do estabelecimento e nos vimos na presença de Balthazar, um destilado do pior de tudo que o sul confederado tem a oferecer. Dava pra sentir o quanto a mera presença daquele homem fazia o sangue de Joshua ferver, por mais de uma vez eu achei que ele fosse se descontrolar, mas para o bem de todos nós isso não aconteceu.
Fomos escoltados até a moradia de Lodin, onde tivemos algum tempo para explorar o enorme andar do prédio de escritórios que ele chama de casa. Tudo parecia no lugar, exceto no escritório onde havia um corpo na cadeira com um único tiro a queima roupa no meio da testa. Sobre a mesa havia um tabuleiro de xadrez e uma carta com uma elegante letra feminina dizendo algo como "veja bem, se a vida é um xadrez, eu jogo melhor que você e faltam 4 movimentos para o xeque". No fundo do cômodo uma pesada porta de cofre escondia os aposentos de Vossa Majestade, mas essa porta estava amassada como se fosse massinha de modelar, algo de força assustadora passou por ali. Segui lá para dentro enquanto Sig e Jules foram olhar as câmeras de segurança e Joshua continuou avaliando o corpo. O que encontrei dentro do cômodo frio com paredes de metal foram: um pingente estranho em formato de uma presa negra; sobre a escrivaninha um diário pertencente a Almirante Thourney, que relatava uma série de acontecimentos que levaram a 1ª Guerra, mas que mencionava vampiros também e que na contracapa trazia a seguinte dedicatória "A Roarke, um grande servo que me trouxe um livro sem relevância"; e um grande dossiê compilado por Neally sobre um ritual satânico na cercania da cidade, que mencionou alguém chamado DuSable e algo chamado Nefandi e também incluiu um mapa. Me pergunto porque algo assim está no escritório do Príncipe... Foi então que ouvi um grito feminino e corri até lá para ver uma moça com nariz ensanguentado Jules exaltado e Sig se desculpando repetidamente para a moça. Aparentemente, Sig descobriu que não havia nada nas imagens da segurança (o que nos faz pensar se há um pedaço do filme faltando) se assustou e bateu por reflexo na mulher que chama Natasha. A moça se culpa por ter deixado o príncipe ser levado, mas disse que fez seu trabalho de observar as câmeras e que não viu nada. Fora isso a outra informação que conseguimos com os seguranças do local foi que o homem morto no escritório era Julian Curry, de 66 anos, contador que trabalhava no prédio. Fomos então praticamente expulsos do local por Balthazar que disse que ficaria colado na gente até que revelássemos onde estávamos escondendo o príncipe.
Ele então nos colocou no carro e levou até a Caverna onde iria nos interrogar se não tivesse sido interrompido por um jovem negro que tentou estacá-lo. Foi então que aconteceu a maior bagunça que já vi desde que jogaram uma garrafa de vodka no nosso baterista durante um show naquele moquifo da zona norte. Um quarto de 4x4, 6 vampiros, uma estaca e uma faca. Resumindo os acontecimentos, o xerife foi estacado pelo líder local dos anarquistas do "movimento", Sig deu uma boa surra no Josh na hora em que um deles queria delatar Damien e o outro queria evitar que o xerife percebesse o que estava acontecendo, Jules tentou ajudar o xerife assim como eu, mas o anarquista dominou a situação e saiu na melhor. Ele largou o xerife comatoso no chão e andou conosco na BMW contando que o xerife tinha ordem de nos matar (o que faz sentido considerando que havíamos sido enquadrados), mas que ele mesmo havia sido enviado por alguém que nos queria vivo, que ele Damian sabia disso porquê tinha contatos na primigênie e que queria que nos lembrássemos daquilo enquanto procurávamos pelo príncipe, livres de Balthazar graças a nosso misterioso patrono. Além disso ele nos deu um endereço onde disse que havia um carniçal livre que nos manteria em segurança, durante a noite em troca de um gole de vitae.
Para nossa surpresa (ou não, já que aparentemente não se pode confiar em nenhum vapiro nessa cidade), o endereço era um 7 Eleven abandonado onde havia um par de policiais que acharam que éramos os satanistas da floresta e chamaram 4 viaturas de reforço. Não sei quem são esses cultistas, mas cara, considerando a preocupação da polícia acho que eles estão envolvidos no grande  jogo da torre e no sumiço do Rei Vampiro como diria Emily. Afinal conseguimos nos proteger dentro de um esconderijo cavado e selado com um alçapão nos fundos da loja. O esconderijo parece um laboratório simples, pela mesa com vidrinhos e pipetas. Achei investigando o local um frasco de sangue escondido, que dei pra Sigrún farejar daquele jeito engraçado dela. Só que ela surtou, tomou na mão e deu um gole igual como se fosse uma beberrona na seca. Ela ficou absurdamente eufórica, acho que da pra falar que estava quase doidona com aquilo... É um sangue, muito antigo parece. O guardei comigo antes de adormecer, do lado da caixa de cigarros, e do lado claro...de Rimbaud, que hoje me disse:


Quem? A eternidade.
É o mar misturado
 Ao sol.

"Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

"Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

"— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

"Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

"Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
 Ao sol."



·        Quem na primigênie nos quer vivos e por quê?
·        Como esses cultistas estão ligados ao desaparecimento do Príncipe?
·        Qual o envolvimento de Ballard e Neally nisso?



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